Não adianta: por mais que a gente critique o fato da vida humana girar em torno do trabalho e dinheiro, isso possui uma influência gigantesca na nossa rotina. Essa concepção só ficou clara pra mim agora que estou vivendo incertezas profissionais e com pouca grana no bolso.
Óbvio que faz alguns anos que entendi a importância de ter um emprego, de ter a minha independência financeira, etc. Mas agora, eu tenho enxergado um outro lado dessa situação. Um lado de quem não quer tratar isso como um fardo, afinal, é para o resto da vida.
Apesar das coisas não estarem tão boas (financeiramente falando), posso dizer que, em partes, estão melhores do que um ano atrás. Por exemplo, enquanto profissional, estou mais qualificada, madura e escrevendo sobre assuntos que realmente fazem sentido para mim — não para empresas que vão contra os meus valores. Além disso, sou muitíssimo grata pelas pessoas (exclusivamente mulheres) que fazem parte do meu dia a dia, porque estou aprendendo muito com elas.
Faz meses que eu falo religiosamente sobre a minha vida profissional e financeira na terapia. Às vezes, a rotina instável pesa mais e eu fico pior, desesperada, com crises depressivas. Eu choro, penso coisas ruins, me esforço para não agir no impulso e consigo me aliviar. Sempre compartilho minhas angústias com alguém da minha confiança, pois o suporte de quem nos ama é essencial para seguirmos em frente.
Na última sessão, minha psicóloga disse algo mais ou menos assim: “Eu sei que é uma situação difícil, não tem como romantizá-la, mas uma coisa é verdade: você está amadurecendo mais, ganhando experiência, aprendendo. Vai ser tirado algum aprendizado disso”. Acho que remar contra a maré, numa canoa furada, é isso.
Não sinto que estou em um mar calmo, pelo contrário. Mas eu sigo remando, ora para um lado, ora para outro, depois eu refaço a rota, começo do zero de novo, me arrisco mais um pouco, pego uma tempestade, descanso numa ilha…
Em outras palavras, eu tenho tentado de tudo para conquistar uma rotina mais tranquila. Estou prestando concursos, procurando por mais freelas e enviando muitos currículos. Aliás, se você pensa que levar ghosting de ficante é ruim, é porque ainda não levou de vários RHs que te entrevistam, pedem por um teste prático e nunca mais respondem. Péssimos profissionais, péssimas culturas organizacionais e empresas piores ainda!
Esses dias, recebi uma proposta de ganhar dinheiro em troca de likes em uma plataforma (golpe). Na mesma semana, caí em um golpe absurdo: mandei currículo, fui selecionada, abri um QR Code e clonaram o WhatsApp do celular que eu usei. Na hora, não associei, só caiu a ficha quando ninguém mandou mensagem para mim no horário da entrevista marcada — depois de eu ter estudado tudo sobre a empresa. Outro dia ainda, me chamaram para uma entrevista e só na hora descobri que era para ser consultora de vendas, sem nem salário fixo.
Não precisa me dizer, eu sei que não é só pra mim que está ruim
Sei que assim como eu, milhares de indivíduos estão passando pela mesma situação, de não conseguir uma fonte de renda estável ou não ter uma ocupação. Na verdade, consigo reconhecer que ainda estou numa posição privilegiada, embora as pessoas da minha bolha estão anos luz na minha frente no quesito profissional (mas eu juro que não estou me comparando tanto assim, no fundo essa galera deve estar vivendo outros problemas).
Todavia, não acho justo comigo mesma invalidar os meus sentimentos de frustração, desvalorização, tristeza, raiva e angústia sobre minha situação profissional. Tenho um currículo qualificado, um diploma, experiência comprovada e planos para o meu crescimento pessoal: então, por que está tão difícil remar para fora dessas ondas?
Eu tive muita resistência para publicar esse relato, com medo do que os outros iriam pensar, seja pela minha situação desfavorável no mercado ou algo como “mas essa menina mimada é muito mole“. Porém, como disse uma grande amiga: “Só você está vivendo o seu mundo e a sua vida. Se for para se comparar com quem está pior, que seja para se inspirar em continuar buscando alternativas e se movimentando”.
E se você acha meu texto entediante ou de pouca importância, acredite: para mim, é uma vitória estar escrevendo esse tipo de coisa, ao invés de relatar meus pensamentos autodestrutivos ou de fuga. Eles têm aparecido com frequência por causa dessa situação relacionada ao trabalho e à grana, a gente vê o dinheiro saindo ao invés de entrar e fica desesperada. Então, preciso me apegar e reconhecer os dias bons, com estabilidade emocional e a coragem de continuar remando.
No final, é tentar lembrar daquela música “canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar” e sair cantarolando por aí, enquanto rema (ou envia currículos). E então, quando passar essa fase de mar agitado — ou parado, depende da sua interpretação —, a gente segue cantando a mesma canção, para não perder a esperança de que a felicidade existe além dos números na conta bancária ou de um emprego monótono.
One Response
Lau, amo a sua escrita e tudo que você escreve no seu blog. Para além disso, gosto de como você é transparente em mostrar também os fracassos da vida. No âmbito profissional eu só vejo os amigos e colegas contando as vitórias e isso me faz pensar “meu deus, não é possível que só eu tô fudida”