Assim como eu, uma pessoa comum

Eu, como alguém que foi uma criança questionadora e adolescente rebelde, tenho tido conflitos em aceitar que faço parte do normal

Todo aquele sentimento durante a minha infância em manter o título de melhor aluna, ou então ser a menininha linda que todo mundo paparicava, foi se perdendo conforme eu cresci. Em partes, isso é ótimo. Imagina viver para atender às expectativas dos outros? 

Porém, ao mesmo tempo, sinto-me muito frustrada quando olho ao meu redor e vejo uma pessoa mais nova do que eu, ganhando milhões e tendo a aparência que eu sempre desejei. 

Ou então, quando vejo aquela pessoa que estudou comigo na faculdade, que fala cinco idiomas, já viajou para todos os continentes e tem um emprego que parece o melhor do mundo.

Com as redes sociais, entrar em contato com a realidade dos outros e questionar o meu dia a dia é algo constante. Haja exercício mental para não se comparar!

Até que esses tempos, tive um pensamento conformador de que eu faço parte da regra do mundo, não da exceção

Veja só: a maior parte das pessoas estão trabalhando agora para sobreviver. Não é nem viver, é sobreviver. Precisam colocar comida na mesa, pagar as contas para ter onde morar e ainda manter relações sociais, seguindo a moral que nos passaram e acatamos automaticamente. 

Aquela mulher riquíssima, com a vida de um conto de fadas, é uma exceção a essa realidade. Não importa se ela tem mais de 50 milhões de seguidores nas redes sociais, quem de fato consegue ter uma vida igual a dela?  

E aquele colega de faculdade, bom, com toda certeza a vida dele foi diferente da minha desde o nascimento. Oportunidades, privilégios, criação. Eu mal consigo falar uma frase em inglês sem gaguejar, quem dirá ler em alemão? 

Quando olho para os números que estão fora da tela do celular, percebo que existe um padrão, uma regra, na maioria deles. Os meus números são semelhantes aos da maioria dos indivíduos. Números nos boletos para pagar, no salário baixo, a quantidade de angústiasE olha que eu sou uma pessoa privilegiada na sociedade brasileira, hein? 

Então, ao invés de me frustrar por não fazer parte da exceção, que é tão glamorosa, eu estou aprendendo a ser a regra, a abraçar o normal. Mesmo com uns piercings no corpo, um cabelo que já passou por todas as cores e o diagnóstico de transtorno de personalidade, eu ainda me sinto totalmente normal

Normal, pertencente ao planeta Terra e querendo ir na contramão dessa onda de seguir as exceções e normalizá-las. Se for para normalizar alguma exceção, que seja colocar gengibre e morango no caldo de cana, ao invés de desejar comprar uma bolsa de meio milhão de reais.  

Afinal, nem quem trabalha numa escala 6×1, oito horas por dia (ou mais) conseguirá um dia ter esse objeto. Que convenhamos, não serve para nada extraordinário e nem vale o preço. 

Ambição? É claro que eu tenho, não vejo a hora de me sentir segura e ter dinheiro no bolso para viajar o mundo. Mas ainda assim, continuarei fazendo parte da regra, porque já não quero mais ser uma exceção. 

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